Israel Institute of Biblical Studies

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Eleição e missão dos Setenta discípulos



Embora, não seja necessário determinar com precisão a sequência dos fatos desta época da vida de Jesus, parece-nos que pouco antes da Festa dos Tabernáculos deve-se registrar o episódio relativo aos Setenta; que também pode ter acontecido ao fim da estada de Jesus em Jerusalém, por ocasião desta solenidade.
O motivo pelo qual Jesus convocou tão grande número de novos auxiliares é claramente manifestado. Como o tempo urgia, ele quis evangelizar em muitos lugares onde ainda não havia exercido seu ministério. Não podendo dedicar mais do que algumas horas a cada um deles, seria necessário que sua breve estada fosse preparada de maneira que produzisse o maior fruto possível.
A pregação preliminar desses discípulos, como antes a dos apóstolos, seria utilíssima para despertar os ânimos e preparar os corações. Por isso, Jesus organizou um grupo especial, cujos membros escolheu entre os mais idôneos e zelosos de seus seguidores, para enviá-lo, diante de si, a todas as cidades e aldeias que se propunha a visitar pessoalmente.
Quantos foram exatamente escolhidos? Setenta, segundo a maioria dos estudiosos. Antes de enviar esses novos pregadores pelos distritos meridionais da Palestina, Jesus lhes deu algumas instruções a respeito da missão deles:

E dizia-lhes: Grande é, em verdade, a seara, mas os obreiros são poucos; rogai, pois, ao Senhor da seara que envie obreiros para a sua seara.
Ide; eis que vos mando como cordeiros ao meio de lobos.
Não leveis bolsa, nem alforje, nem alparcas; e a ninguém saudeis pelo caminho.
E, em qualquer casa onde entrardes, dizei primeiro: Paz seja nesta casa.
E, se ali houver algum filho de paz, repousará sobre ele a vossa paz; e, se não, voltará para vós.
E ficai na mesma casa, comendo e bebendo do que eles tiverem, pois digno é o obreiro de seu salário. Não andeis de casa em casa.
E, em qualquer cidade em que entrardes, e vos receberem, comei do que vos for oferecido.
E curai os enfermos que nela houver, e dizei-lhes: É chegado a vós o reino de Deus.
Mas em qualquer cidade, em que entrardes e vos não receberem, saindo por suas ruas, dizei:
Até o pó, que da vossa cidade se nos pegou, sacudimos sobre vós. Sabei, contudo, isto, que já o reino de Deus é chegado a vós.
E digo-vos que mais tolerância haverá naquele dia para Sodoma do que para aquela cidade. (Lc 10:2-12)
Salvo alguns pormenores, essas recomendações são as mesmas que lemos na primeira parte do discurso de Jesus aos apóstolos em ocasião parecida. Jesus indica primeiro o motivo que o impulsionava a enviar tantos obreiros ao campo: o grão estava maduro, e a colheita se anunciava abundantemente. Por outro lado, inspira neles o conhecimento de sua fraqueza pessoal, recordando-lhes que seriam como ovelhas entre lobos cruéis.
Depois, Jesus lhes ensina como teriam de proceder quando chegassem às cidades e às aldeias, enquanto durasse a estada deles; como deveriam proceder se fossem bem acolhidos, se fossem rejeitados e quando se retirassem. Os discípulos não deveriam fazer preparativos de viagem, nem levar equipamentos inúteis, nem gastar tempo em conversas ociosas. Deveriam confiar na hospitalidade de seus conterrâneos, deixar sem demora os lugares onde não quisessem recebê-los, e anunciar-lhes os castigos divinos a que se expunham. O tema geral da pregação era o mesmo de João Batista, dos apóstolos e do próprio Jesus Cristo.
Jesus também fala sobre cidades que não receberiam seus enviados, e esse pensamento traz à memória dele recordações pessoais extremamente dolorosas. Três cidades impenitentes haviam permanecido incrédulas acerca dele. Ele se despede delas com um terrível adeus, que é um tríplice anátema:

Ai de ti, Corazim, ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se fizessem as maravilhas que em vós foram feitas, já há muito, assentadas em saco e cinza, se teriam arrependido.
Portanto, para Tiro e Sidom haverá menos rigor, no juízo, do que para vós.
E tu, Cafarnaum, que te levantaste até ao céu, até ao inferno serás abatida.
Quem vos ouve a vós, a mim me ouve; e quem vos rejeita a vós, a mim me rejeita; e quem a mim me rejeita, rejeita aquele que me enviou. (Lc 10:13-16)

O coração de Jesus devia estar muito ferido quando, apesar de sua paciência, mansidão e misericórdia inefáveis, deixou escapar tais maldições! Depois de tudo o que os moradores dessas cidades haviam visto e ouvido sobre Jesus no decurso dos meses, que desculpa poderiam alegar para sua indiferença e sua incredulidade?
Mesmo a ímpia Sodoma e as cidades pagãs de Tiro e Sidom teriam se convertido se recebessem graça semelhante à que foi concedida a Corazim, a Betsaida e a Cafarnaum; teriam mostrado humildemente seu arrependimento ao modo daqueles tempos distantes: cobrindo-se com vestes de grossos tecidos e salpicado de cinzas a cabeça.
Das três cidades que o Salvador reprova, Corazim era a menos conhecida. Ela não é mencionada nos livros do Antigo Testamento nem nos de Flávio Josefo. O Talmude cita a excelente qualidade do trigo dela.
Os palestinólogos modernos a identificam com o lugar chamado Kerezaeth, cujas importantes ruínas se vêm em um vale a três quilômetros a nordeste de Tell-Hum (Cafarnaum), a alguma distância do lago. Este lugar, já nos tempos de Eusébio e Jerônimo, estava deserto.
Para não deixar seus discípulos com a triste impressão desses anátemas, o Mestre concluiu sua instrução pastoral com uma sentença das mais consoladoras. Quem vos ouve a vós, a mim me ouve; e quem vos rejeita a vós, a mim me rejeita; e quem a mim me rejeita, rejeita aquele que me enviou (Lc 10.16). Jesus os fez representantes dele e de Seu Pai Celestial. Não eram seus enviados? Pois bem, em todos os tempos e em todos os países, o embaixador representa integralmente a sua nação.
A ausência desses novos missionários não seria longa. Depois de terem visitado as cidades, completado a sua pregação e tirado dela o devido fruto, os setenta se reuniram com Jesus de novo, no dia e no lugar que lhes havia assinalado. Lucas, sem tecer pormenores, descreve em poucas palavras a deliciosa cena que aconteceu durante o retorno dos discípulos: E voltaram os setenta com alegria, dizendo: Senhor, pelo teu nome, até os demônios se nos sujeitam. (Lc 10:17)
A alegria que enchia o coração deles e irradiava em cada rosto pode ser vislumbrada neste brevíssimo resumo: até os demônios se nos sujeitam. Por esta declaração, entendemos que os setenta discípulos não esperavam esse poder particular. Eles o assinalaram com ingênua simplicidade, como se fosse a maior vitória que poderiam ter no curso de sua recente missão. De fato, não parece que o Senhor lhes tenha comunicado, em termos explícitos, o poder de expulsar demônios; contudo haviam libertado os possessos, invocando o nome de Jesus Cristo.
Contudo, Jesus lhes deu primeiro esta majestosa resposta: Eu via Satanás, como um raio, cair do céu (Lc 10.18). Com essas palavras, referia-se ele à queda de Satanás, anterior à criação do homem, tal como brevemente João a esboça no livro de Apocalipse? Assim entenderam, segundo Orígenes, vários pais da Igreja, os quais acrescentaram que o Salvador quis lembrar a seus discípulos tão terrível exemplo, para levá-los à humildade, porque os via impressionados pelas vitórias sobre os demônios.
Depois, o Mestre acrescentou:

Eis que vos dou poder para pisar serpentes e escorpiões, e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano algum.Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus.(Lc 10:19,20)
Para explicar aos discípulos o sucesso de seus exorcismos, o Mestre lhes ensina que, sem eles saberem, os havia provido de poderes irresistíveis contra os demônios, representados aqui pelos animais perigosos. Depois de sua ressurreição, Jesus renovará essa imunidade, estendendo ainda mais os limites dela.
No entanto, provando e compartilhando sua alegria, o Mestre lhes sugere um motivo muito mais elevado de confiança e alegria. Grande bênção, sem dúvida, é o dom de expulsar os espíritos malignos dos possessos; mas, comparado à posse do céu, é um privilégio secundário, que nem mesmo assegura essa posse àqueles que têm recebido tal dom. Saber que alguém está destinado ao céu, que seu nome está escrito na lista dos escolhidos, é uma fonte de alegria superior, na qual se pode descansar com doce segurança.

Naquela mesma hora se alegrou Jesus no Espírito Santo, e disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste às criancinhas; assim é, ó Pai, porque assim te aprouve. (Lc 10:21)

O Espírito divino, que dirigia todos os movimentos da alma de Jesus, inundou-se de vivíssima alegria. Esse fato é único na história do Salvador. Entre tantos motivos de tristeza, o Mestre se sentia alegre por contemplar em espírito os admiráveis frutos de seu ministério e de seus inumeráveis sacrifícios.
Nesse divino arrebatamento, Jesus pronunciou algumas sentenças de inefável formosura e de inesgotável profundidade. E de forma poética resumiu magnificamente a doutrina cristã. Com a terna efusão de seu coração, Jesus expressou primeiro seus sentimentos amorosos para com Seu Pai Celestial. Ao mesmo tempo, ofereceu-lhe louvor e ações de graças por ocasião de dois fatos em que especialmente resplandecem a providência divina com respeito ao reino dos céus: de um lado, o Pai oculta seus mistérios aos sábios segundo a carne e, de outro, revela seus segredos aos pequenos e aos humildes. Ao orgulho pela inteligência, responde com o silêncio; à simplicidade e à humildade, com iluminações maravilhosas.
Os sábios aqui representam os escribas; as criancinhas, os apóstolos, os discípulos, e muitos outros pequeninos diante do mundo - a estes, eram dadas as mais divinas revelações. Não que a intelectualidade seja por si mesma obstáculo à boa recepção do evangelho; mas ela não é o fator preponderante. Para apropriar-se dos ensinamentos de Jesus e caminhar após o Mestre, requer-se apenas boa vontade e qualidades morais. Depois de ter dado testemunho da providência do Pai, Jesus se detém durante um momento. Então, prossegue com nova força em seus louvores: Assim é, ó Pai, porque assim assim te aprouve (Lc 10.21).
As palavras que seguem são de valor inestimável para a teologia, porque afirmam, com clareza e força invencíveis, a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo, que conclui sua orientação aos setenta discípulos com outra interessante sentença, congratulando-se de que eles tivessem sido os escolhidos do Pai para receber tão sublimes revelações: E, voltando-se para os discípulos, disse-lhes em particular: Bem-aventurados os olhos que vêem o que vós vedes.
Pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que ouvis, e não o ouviram. (Lc 10:23,24)
Eles entendiam de alguma maneira o privilégio que lhes havia concedido Deus, mas Jesus queria fincar mais firmemente no espírito e no coração de cada um deles a ideia de que haviam recebido uma graça extraordinária, um benefício singular. Jesus dá a entender que os profetas de Israel e os reis santos desejaram ardentemente vê-lo com seus olhos e ouvi-lo com seus próprios ouvidos. Contudo, nem Davi, nem Josias, nem Ezequiel, nem Isaías, nem Jeremias, nem Daniel, nem tantos outros desfrutaram desse grande privilégio.
Amém!

Saber que alguém está destinado ao céu, que seu nome está escrito na lista dos escolhidos, é uma fonte de alegria superior, na qual se pode descansar com doce segurança.